As veias abertas da América Latina voltam a sangrar

Edward Magro | 03/01/2026 Nada mais excessivamente esperançoso do que imaginar que a política internacional obedece a algum código de boas maneiras, uma espécie de manual de etiqueta para Estados supostamente civilizados. Antes que o velho imaginário hollywoodiano apresente ao mundo sua versão épica da invasão da Venezuela, com heróis inflados e explicações glamourosas, vale uma pausa breve para distinguir o que ainda resiste à ficção. Não por devoção ao factual, mas por um gesto simples de consideração pela inteligência alheia — ao menos pela nossa, que ainda tenta não se deixar seduzir pelo espetáculo. A história latino-americana é fértil…

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Gesto é poder

Edward Magro | 26/10/2025 A respeito da reunião bilateral, atrevo-me, talvez com certa imprudência, a interpretar o encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, hoje em Kuala Lumpur, não pela política, cujo conteúdo permanecerá envolto em reserva diplomática, mas pela semiótica, mais precisamente pela imagética — esse território em que os corpos revelam o que as palavras preferem omitir. No vídeo da conferência pré-reunião reservada, o essencial não está no que se diz, mas no que se move e, sobretudo, em como se move. O que se viu ali não foi propriamente uma conversa entre chefes de…

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A peleja de Lula com Trump

Edward Magro | 23/10/2025 Durante toda a semana, diplomatas, analistas, jornalistas e palpiteiros curiosos, como eu, se ocuparam da antes improvável, hoje muito provável, reunião entre Lula e Trump, à margem da 47ª Cúpula da ASEAN, em Kuala Lumpur. À mesa, que no protocolo se chamará “encontro bilateral”, serão servidos dois únicos pratos. O Brasil busca o fim das taxações que encarecem suas exportações; os Estados Unidos, como de costume, pretendem conter a influência chinesa sobre o continente sul-americano — e, para isso, veem o Brasil como o troféu que ainda lhes falta na cristaleira da hegemonia. É um banquete…

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Por um outro Israel

Edward Magro | 16/10/2025 Em Roma, ao ser questionado sobre as relações do Brasil com Israel, o presidente Lula respondeu com a serenidade habitual: “O Brasil não tem problema com Israel; o Brasil tem problema é com Netanyahu. A hora em que Netanyahu não estiver mais no governo, não haverá nenhum problema entre o Brasil e Israel, que sempre tiveram uma relação muito boa.” A resposta, cortês e diplomática, parece simples. Mas há algo nela que me inquieta. Talvez o impasse não se limite a um nome, nem a um governo. Meu desconforto, ou minha angústia, habita o segundo período…

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