América do Sul, melhor será sem Norte

Edward Magro | 04/01/2026 Com o gosto metálico deixado pela violência da invasão do território venezuelano e pelo sequestro de seu presidente pelos Estados Unidos, somados à coletiva de imprensa marcada pela arrogância exibida ontem pelo governo estadunidense, tenho para mim que se rompeu, de uma vez por todas, a tênue camada de civilidade que durante anos sustentou — quase como uma arquitetura imaginada — as relações entre Washington e o restante do mundo. De repente, ficou exposto, sem véus, o ímpeto estadunidense de impor, pela força bruta, sua autoridade global. Nada ali brotou de impulsos repentinos. Nada nasceu do…

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As veias abertas da América Latina voltam a sangrar

Edward Magro | 03/01/2026 Nada mais excessivamente esperançoso do que imaginar que a política internacional obedece a algum código de boas maneiras, uma espécie de manual de etiqueta para Estados supostamente civilizados. Antes que o velho imaginário hollywoodiano apresente ao mundo sua versão épica da invasão da Venezuela, com heróis inflados e explicações glamourosas, vale uma pausa breve para distinguir o que ainda resiste à ficção. Não por devoção ao factual, mas por um gesto simples de consideração pela inteligência alheia — ao menos pela nossa, que ainda tenta não se deixar seduzir pelo espetáculo. A história latino-americana é fértil…

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Olhe para cima

Edward Magro | 19/08/2025 Algo de muito sério está acontecendo, e não estou certo de que todos estejam percebendo. Não por falta de indícios — eles se acumulam —, mas porque a atenção coletiva tem sido sequestrada, dia após dia, pelo teatro grotesco encenado pelo palhaço fascista de pele alaranjada. O enredo é elementar: distrair, confundir, provocar risos nervosos e, nesse intervalo, avançar projetos políticos de destruição. É a lógica do filme Não Olhe para Cima, paródia quase-vida-real do primeiro mandato de Trump, em que Meryl Streep, emulando Trump, exibia-se dizendo: “Não se preocupem com o meteoro, olhem para mim”.…

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O adeus de Lula a Mujica e o gesto que transcendeu a política

15/05/2025 Há despedidas que se dão no tempo. Outras, no espírito. A de Lula e Pepe Mujica foi das que se inscrevem na carne da história — mas também nas dobras mais íntimas da alma. Lula não alterou uma agenda internacional extremamente importante para “faturar” com a morte de um velho amigo, como já insinuam — com a previsibilidade de sempre — os de sempre. Estava em viagem quando soube do fim de Pepe, e a família do ex-presidente uruguaio — num gesto de rara grandeza e delicado afeto — decidiu adiar o enterro para que o brasileiro pudesse se…

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