América do Sul, melhor será sem Norte

Edward Magro | 04/01/2026 Com o gosto metálico deixado pela violência da invasão do território venezuelano e pelo sequestro de seu presidente pelos Estados Unidos, somados à coletiva de imprensa marcada pela arrogância exibida ontem pelo governo estadunidense, tenho para mim que se rompeu, de uma vez por todas, a tênue camada de civilidade que durante anos sustentou — quase como uma arquitetura imaginada — as relações entre Washington e o restante do mundo. De repente, ficou exposto, sem véus, o ímpeto estadunidense de impor, pela força bruta, sua autoridade global. Nada ali brotou de impulsos repentinos. Nada nasceu do…

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Gesto é poder

Edward Magro | 26/10/2025 A respeito da reunião bilateral, atrevo-me, talvez com certa imprudência, a interpretar o encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, hoje em Kuala Lumpur, não pela política, cujo conteúdo permanecerá envolto em reserva diplomática, mas pela semiótica, mais precisamente pela imagética — esse território em que os corpos revelam o que as palavras preferem omitir. No vídeo da conferência pré-reunião reservada, o essencial não está no que se diz, mas no que se move e, sobretudo, em como se move. O que se viu ali não foi propriamente uma conversa entre chefes de…

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A peleja de Lula com Trump

Edward Magro | 23/10/2025 Durante toda a semana, diplomatas, analistas, jornalistas e palpiteiros curiosos, como eu, se ocuparam da antes improvável, hoje muito provável, reunião entre Lula e Trump, à margem da 47ª Cúpula da ASEAN, em Kuala Lumpur. À mesa, que no protocolo se chamará “encontro bilateral”, serão servidos dois únicos pratos. O Brasil busca o fim das taxações que encarecem suas exportações; os Estados Unidos, como de costume, pretendem conter a influência chinesa sobre o continente sul-americano — e, para isso, veem o Brasil como o troféu que ainda lhes falta na cristaleira da hegemonia. É um banquete…

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Celebrar a morte de fascista é dar vida ao fascismo

Edward Magro | 15/09/2025 Neste fim de semana, num misto de autoflagelação e crueldade contra mim mesmo, decidi assistir a alguns vídeos do recém-assassinado Charlie Kirk. Do que vi e ouvi, mesmo que esgotasse todos os adjetivos pejorativos do Aurélio, mesmo que os dispusesse em fila indiana, um a um, como cadáveres num cortejo malcheiroso, ainda assim a enumeração seria insuficiente para descrever sua hedionda e repulsiva figura. Sua performance, em essência, é a maldade humana transformada em espetáculo, a perversão condensada na figura de um influenciador fascista típico. E, no entanto, mesmo diante de alguém tão repugnante, não encontro…

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