O insustentável peso da leveza

18/07/2025 Se eu fosse um homem de fé — e Deus sabe o quanto tentei, e o quanto falhei — esta sexta-feira me colocaria num impasse teológico de primeira grandeza. Porque ela não apenas sextou. Sextou linda, esplendorosa, radiante, iluminada, apesar do céu de inverno, encoberto e acinzentado, e da umidade da garoa que, incasavelmente, cai lá fora há pelo menos doze horas. Sextou fria no termômetro, quente no coração. Difícil explicar a leveza do ar. O país ainda é o mesmo; o governo, igualmente inalterado. Lula continua refém de um Congresso criminoso; Hugo Motta segue empregando fantasmas em seu…

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A arte da revelação ao avesso

17/07/2025 Na manhã de hoje, por trinta longos e dolorosamente ininterruptos minutos, Jair Bolsonaro ocupou um púlpito situado em algum espaço secundário do Senado Federal, onde pôde exercer, com a habitual profusão, sua única especialidade, que é a arte de falar sem dizer. Por vocação e mérito, a sessão performática na qual o ex-presidente tentou emular a autoridade que jamais possuiu transformou-se num verdadeiro suplício para a audiência, eu incluído, naturalmente. Desalinhado e desajeitado dentro de um terno mal cortado, o corpo que outrora circulava nos ombros de bajuladores em passado recente jazia ali, presente à missa, cercado por um…

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O doce sabor da rachadinha

15/07/2025 A notícia do dia é que o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente atualmente a uma pata e meio casco da Papuda, reagiu mal, muito mal, à atuação do procurador Paulo Gonet, que apresentou ao STF o relatório final pedindo a condenação do pai do senador. Segundo Flávio, o procurador só poderia ter ingerido “altas doses de Diazepam” para formular tal petição. A frase foi proferida com aquele tom de indignação típico de quem, envergando a camisa amarela da seleção, enxuga lágrimas com a bandeira do Brasil. Trata-se, como muitos certamente prefeririam esquecer, de uma cena difícil de apagar…

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O autoexílio do verme

14/07/2025 Acabo de assistir a um vídeo de Eduardo Bananinha em estado de possessão cívica. Olhos vermelhos, esbugalhados, órbitas saltadas, narinas enevoadamente esbranquiçadas. Nele, o herdeiro careca da familícia anuncia, entre convulsões retóricas e lampejos místicos, seu autodesterro. Num gesto de sacrifício épico, totalmente tiktokeano, oferece seu corpo à pátria, decidido a resgatar a democracia brasileira. Para tanto, afirma que deixará a Câmara dos Deputados e fincará pé nos Estados Unidos. Disse ele que se entrega por um ideal superior, por uma missão revelada, ao que tudo indica, em sonho. Trata-se, possivelmente, de um daqueles sonhos que o Altíssimo envia…

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