Edward Magro | 18/05/2026
Carlo Ancelotti, o Mister, anuncia hoje, às cinco da tarde, a lista dos 26 convocados para a próxima Copa do Mundo. Em teoria, trata-se de um exercício de meritocracia esportiva. Em teoria, observam-se desempenho, regularidade, condição física, disciplina tática e utilidade coletiva. Em teoria, cada nome deve justificar sua presença com o que fez em campo. Na prática, porém, o país acompanha uma curiosa experiência administrativa. Ao que tudo indica, a relação tem apenas 25 vagas em disputa. A vigésima sexta já estaria reservada por decreto sentimental.
Neymar ocupa, no futebol brasileiro, uma categoria singular. Não precisa estar em sua melhor forma, não precisa jogar em alto nível por meses consecutivos, não precisa atender aos requisitos que serão aplicados, com rigor quase draconiano, aos demais candidatos. Aos outros, cobra-se currículo recente: saúde física, gols, assistências, mapas de calor, eficiência, entre tantos outros critérios. A ele, concede-se uma espécie de salvo-conduto aristocrático, como se sua simples presença bastasse para suspender as regras que organizam a vida de um atleta.
É um fenômeno antigo e bastante brasileiro. De tempos em tempos, o país escolhe um talento extraordinário e o transforma em instituição permanente, independentemente do que essa instituição produza no balanço final. O jogador deixa de ser atleta para converter-se em ativo econômico, plataforma publicitária e centro de gravidade de interesses variados. Em torno dele, prosperam patrocinadores, comentaristas, ex-jogadores nostálgicos, dirigentes oportunistas e toda uma fauna de especialistas em manter acesa a chama da promessa eterna.
O consumidor final, esse personagem de boa-fé que compra a camisa, reorganiza a agenda e submete o coração a sucessivos abalos, recebe, em troca, um produto peculiar. Entrega-se expectativa em escala industrial. O resultado concreto costuma ser mais modesto.
Neymar e Zico pertencem, cada um à sua maneira, a essa tradição. Ambos são craques de talento indiscutível, donos de repertório técnico que encantou multidões. E ambos terminaram associados a ciclos longos em que a seleção brasileira orbitou em torno de uma figura central, sem que a taça viesse ao encontro de tanta reverência. Com Zico, o processo atravessou três Copas. Com Neymar, o país se aproxima da quarta, um feito admirável em matéria de longevidade simbólica.
Há, nesse modelo, algo de economicamente eficiente e esportivamente improdutivo. Mantém-se um nome em circulação contínua, alimentando debates infindáveis e oportunidades comerciais generosas. O futebol, entretanto, raramente recompensa devoções personalistas. Copas do Mundo costumam ser vencidas por equipes que distribuem responsabilidades e aceitam, com sobriedade, que nenhum indivíduo é maior que o conjunto.
A história brasileira sugere um padrão curioso. Quando, enfim, se encerra o culto em torno de um personagem tutelar, abre-se espaço para uma reconstrução mais serena. Novos atletas surgem sem a obrigação de servir como figurantes de uma narrativa alheia. O time volta a parecer um time, e não a corte itinerante de um monarca sem coroa.
Nada disso diminui o talento de Neymar, que foi, em seus melhores dias, um dos grandes jogadores de sua geração. O problema não é o artista. O problema é o regime de exceção que se ergue ao seu redor, como se o futebol brasileiro fosse incapaz de imaginar o futuro sem consultar, antes, o passado.
Por isso, a convocação do camisa mais célebre do país pode ter uma utilidade involuntária. Se o roteiro terminar, outra vez, em frustração, talvez o Brasil finalmente aceite encerrar um ciclo que já se alongou além do razoável. E certos ciclos, como alguns móveis excessivamente ornamentados, só revelam a beleza do ambiente quando são retirados da sala.
Em 1986, a despedida de Zico abriu caminho para a reorganização que culminaria no título de 1994. Se 2026 cumprir função semelhante, o desfecho poderá ser menos melancólico do que parece. O enterro simbólico da chamada geração Neymar talvez seja o primeiro gesto adulto de um país que deseja voltar a vencer.
Ganhar uma Copa do Mundo exige talento, método, paciência e alguma humildade. Sobretudo, exige a coragem de agradecer pelos serviços prestados e seguir adiante. Se o Brasil conseguir fazer isso, quem sabe, em oito anos, o troféu volte a encontrar um time que prefira jogar futebol a venerar fantasmas.
Não menos importante, Neymar e Zico carregam outra singularidade: ambos cultivam posições politicamente reacionárias e, por decorrência natural, demonstram escassa preocupação com a alegria coletiva da maioria.
